Caiu no golpe do Pix? O que fazer agora e quando o banco responde
Como pedir a devolução pelo aplicativo, o que o Banco Central mudou em 2026 e o que a Justiça tem decidido, a favor e contra quem foi enganado.
Por Adalberto Leonel, advogado, OAB/SP 491.272 · Atualizado em 20 de outubro de 2026
Em resumo: se você fez um Pix para um golpista, conteste a transação no aplicativo do seu banco o quanto antes. Isso aciona o MED, o mecanismo de devolução do Banco Central, que tenta bloquear o dinheiro nas contas por onde ele passou. A devolução depende de ainda haver saldo. Se o banco falhou na segurança, a Justiça pode mandá-lo pagar.
Fiz um Pix para um golpista. O que faço agora?
Siga esta ordem. O primeiro passo pesa mais que os outros, porque o MED só alcança o dinheiro que ainda estiver nas contas.
Conteste o Pix no aplicativo
No comprovante da transação, procure a opção de contestar ou de pedir devolução. Todo banco tem de oferecer isso no aplicativo. O pedido aciona o MED. Dá para pedir em até 80 dias, mas quanto antes, maior a chance de o dinheiro ainda estar nas contas.
Fale com o banco e anote o protocolo
Use o telefone do verso do cartão ou do site oficial, nunca um número recebido por mensagem. Peça a resposta por escrito e guarde o número do protocolo.
Registre boletim de ocorrência
Pode ser pela delegacia eletrônica do seu estado. Informe horário, valor, chave Pix de destino e o protocolo do banco.
Guarde tudo
Prints das conversas, números que ligaram, comprovantes e o extrato dos últimos meses. O extrato mostra como você costuma usar a conta, e isso pesa se o caso chegar à Justiça. Não apague nada.
Confira se abriram algo no seu nome
No Registrato, do Banco Central, você vê as contas e as chaves Pix ligadas ao seu CPF. Lá também dá para ativar o BC Protege+, que impede a abertura de contas em seu nome. O acesso é pela conta gov.br nível prata ou ouro.
Se o banco não resolver
Abra uma reclamação no Banco Central. Se a devolução for negada e houver sinal de falha na segurança do banco, vale conversar com um advogado.
Como funciona o MED, o pedido de devolução do Pix
O MED (Mecanismo Especial de Devolução) é a ferramenta do Banco Central para devolver dinheiro de Pix feito em golpe. Seu banco avisa o banco de quem recebeu, o valor é bloqueado e o caso é analisado. Se a fraude se confirma e há saldo, o dinheiro volta, inteiro ou em parte.
- Dia do PixO golpe acontece e o dinheiro sai da sua conta.
- Até 80 diasVocê contesta no aplicativo do seu banco.
- Logo em seguidaO valor é bloqueado nas contas que ainda têm saldo.
- Até 7 diasOs bancos de quem recebeu analisam se houve fraude.
- No fimConfirmada a fraude, o que foi bloqueado volta para você.
Depende de saldo
Só volta o que ainda estiver nas contas. Em 2025, o MED recuperou em média 9,3% do valor contestado.
Banco Central, apresentação do MED 2.0 · out. 2025
Segue o rastro
Desde 2 de fevereiro de 2026, o MED 2.0 segue o dinheiro além da primeira conta que recebeu o Pix.
Bloqueio que aumenta
Desde 1º de julho de 2026, se entrar dinheiro novo na conta bloqueada, o bloqueio cresce até o valor pedido ou até o fim da análise.
Quando o MED não serve
- Desacordo na compraA loja existe, mas o produto veio diferente ou com defeito. Aí é reclamação de consumo.
- Terceiro de boa-féO dinheiro foi parar na conta de alguém que não participou do golpe.
- Pix enviado por enganoVocê digitou a chave errada e não conferiu o nome. Procure o banco e a pessoa que recebeu.
Fonte: Banco Central, perguntas sobre o MED (atualizada em 18/09/2026).
Outras proteções em vigor
- Entre 20h e 6h, o limite inicial de Pix entre pessoas é de R$ 1.000. Para aumentar, o banco leva pelo menos 24 horas.
- O banco tem de recusar Pix para conta com forte suspeita de fraude.
- Quem recebe dinheiro de golpe confirmado fica marcado no sistema e não consegue mais fazer nem receber Pix naquele banco.
O banco é obrigado a devolver o dinheiro do golpe do Pix?
Não automaticamente. O banco responde quando falha na segurança: por exemplo, quando deixa passar transferências muito fora do seu jeito de usar a conta, sem nenhuma checagem. Se o Pix foi feito por você, dentro do seu padrão habitual, os tribunais costumam entender que o banco não tem culpa.
Quando a Justiça mandou o banco pagar
Um idoso de 75 anos foi orientado por um falso funcionário do banco. No mesmo dia, fizeram um empréstimo e pagamentos muito fora do padrão dele. Para o STJ, o banco deveria ter barrado essas operações.
REsp 2.052.228/DF · o caso não envolveu Pix, mas a regra vale para qualquer operação fora do perfilGolpe da falsa central: dois Pix, de R$ 47 mil e R$ 32 mil, fora do perfil da cliente. O banco foi condenado a devolver R$ 79 mil e a pagar R$ 5 mil por dano moral.
Apelação 1176029-39.2024.8.26.0100 · decisão por maioriaQuando a Justiça negou
Também falsa central. Os Pix eram compatíveis com o histórico da conta, e a cliente ainda fez, pessoalmente na agência, uma transferência de R$ 28 mil. O STJ entendeu que a culpa foi dos golpistas e da própria vítima.
REsp 2.209.868/SPGolpe do leilão falso, pago por boleto. O banco que abriu a conta usada pelos golpistas tinha conferido os documentos do titular. Não respondeu pelo prejuízo.
REsp 2.124.423/SPA regra de fundo é a Súmula 479 do STJ: o banco responde por fraudes ligadas ao risco do próprio serviço. Cada caso depende das provas. Os exemplos acima mostram o que os tribunais já decidiram, não garantem o mesmo resultado.
E o banco que abriu a conta do golpista?
Ter a conta usada no golpe não basta para ele responder. Segundo o STJ, ele pode responder se a conta foi aberta com documento falso ou perdido, ou se deixou de agir diante de movimentações suspeitas e repetidas na mesma conta (REsp 2.222.137/SP, 3ª Turma, 07/10/2025).
Como o golpe costuma chegar
Nesses golpes, o criminoso não invade a conta. Ele convence a pessoa a fazer o Pix. Veja como a conversa costuma começar.
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Falsa central do banco
Alguém liga ou manda mensagem dizendo ser do seu banco, fala de uma compra suspeita e pede um Pix "de segurança" ou que você instale um aplicativo.
Sinal: pedido de Pix para "proteger" a conta. -
Falso parente ou amigo
Uma mensagem de número novo, com a foto de alguém da família, pede um Pix urgente. Às vezes é o WhatsApp verdadeiro da pessoa, que foi clonado.
Sinal: número novo e pressa. Ligue para a pessoa no número antigo. -
Loja ou anúncio falso
Preço muito abaixo do normal, pagamento só por Pix e o produto nunca chega. O anúncio pode aparecer em redes sociais ou em sites de busca.
Sinal: desconto grande só no Pix, loja sem endereço nem CNPJ conferível. -
Investimento falso
Promessa de lucro alto e garantido, às vezes com a imagem de pessoas famosas. O painel mostra ganhos, mas para sacar pedem mais um Pix de "taxa".
Sinal: lucro garantido e cobrança para liberar o saque. -
Pix "por engano"
Alguém faz um Pix para você, diz que foi engano e pede que você devolva para outra chave. Veja como agir.
Sinal: pedido para devolver numa chave diferente da que enviou.
Em um ano, cerca de 24,1 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais caíram em golpe com Pix ou boleto falso, com prejuízo estimado de R$ 28,8 bilhões, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha (agosto de 2025). O golpe do falso advogado também costuma terminar num Pix.
Recebeu um Pix que não esperava?
É um golpe conhecido. Alguém faz um Pix para você, diz que foi engano e pede que você devolva numa outra chave. Se você faz um Pix novo, a pessoa ainda pode pedir pelo MED a devolução do Pix original, e você perde duas vezes.
Não faça um Pix novo para uma chave indicada por quem você não conhece. Fale com o seu banco pelo aplicativo antes de devolver qualquer valor.
Se alguém abriu um MED contra você para aplicar um golpe, você também pode contestar no seu banco. Desde 1º de setembro de 2026, quem teve um Pix legítimo devolvido por uma contestação falsa tem 80 dias para contestar essa devolução.
Perguntas frequentes
O banco é obrigado a devolver dinheiro de golpe do Pix?
Não de forma automática. O dinheiro volta pelo MED quando a fraude é confirmada e ainda há saldo nas contas por onde ele passou. Fora disso, o banco só tem de pagar se falhou na segurança, por exemplo ao deixar passar transferências muito fora do jeito habitual de o cliente usar a conta.
Como recuperar dinheiro perdido em golpe do Pix?
Conteste o Pix no aplicativo do seu banco o quanto antes: isso aciona o MED, que bloqueia o dinheiro que ainda estiver nas contas do caminho. Depois, registre boletim de ocorrência, guarde provas e, se o banco negar e houver indício de falha de segurança, procure um advogado.
Qual é o prazo para pedir a devolução de um Pix feito em golpe?
O pedido pelo MED pode ser feito em até 80 dias da data do Pix, segundo o Banco Central. Na prática, quanto mais cedo, maior a chance de o dinheiro ainda estar nas contas.
Fiz o Pix eu mesmo, enganado pelo golpista. Ainda tenho direito?
Depende. Se as transferências fugiam do seu padrão de uso e o banco não fez nenhuma checagem, a Justiça já mandou bancos pagarem. Se o Pix estava dentro do seu padrão habitual, o STJ tem negado a responsabilidade do banco.
O que é o MED 2.0?
É a versão do Mecanismo Especial de Devolução obrigatória desde 2 de fevereiro de 2026. Ela segue o dinheiro além da primeira conta que recebeu o Pix, o que aumenta a chance de encontrar saldo para bloquear.
Quer entender o seu caso?
Se o banco negou a devolução, um advogado pode avaliar se houve falha de segurança. Envie pelo WhatsApp um resumo do que aconteceu, com datas e valores.
Antes de enviar qualquer documento, confira sempre o contato oficial do escritório em advleonel.com.br. Golpistas também se passam por advogados: veja como funciona o golpe do falso advogado.
Fontes
- Banco Central: O que é e como funciona o Mecanismo Especial de Devolução (MED). Atualizada em 18/09/2026.
- Banco Central: Segurança no Pix. Consulta em 20/10/2026.
- Banco Central: Aprimoramentos no Mecanismo Especial de Devolução, MED 2.0 (apresentação). 14/10/2025.
- Banco Central: Resolução BCB nº 493, de 28/08/2025.
- Banco Central: Resolução BCB nº 559, de 23/04/2026.
- Banco Central: Resolução BCB nº 142, de 23/09/2021, com alteração da Resolução BCB nº 501, de 11/09/2025.
- Banco Central: Registrato. Consulta em 20/10/2026.
- Agência Brasil: Novas regras de segurança do Pix entram em vigor. 02/02/2026.
- Agência Brasil: Nova regra do Pix amplia prazo para contestar golpe. 01/09/2026.
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha: Pesquisa de vitimização e percepção sobre violência e segurança pública 2025, p. 15 a 17. Agosto de 2025.
- Portal do STJ: REsp 2.052.228/DF, 3ª Turma, rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/09/2023.
- Portal do STJ: REsp 2.209.868/SP, 3ª Turma, rel. Min. Humberto Martins, julgado em 16/06/2026 (notícia de 15/07/2026).
- Portal do STJ: REsp 2.124.423/SP, 3ª Turma, rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 20/08/2024.
- Portal do STJ: REsp 2.222.137/SP, 3ª Turma, rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 07/10/2025.
- Tribunal de Justiça de São Paulo: Apelação Cível 1176029-39.2024.8.26.0100, 15ª Câmara de Direito Privado, rel. Des. Achile Alesina, julgada em 28/07/2026.